segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Shabbat em Jerusalém

O plano era ir ao Kotel HaMaaravi (literalmente o Muro Oeste, em português conhecido como Muro das Lamentações) na entrada do Shabbat (o sábado começa no entardecer, visto que o calendário é lunar-solar), encontrar o minian (grupo de dez ou mais judeus, necessário para a reza coletiva) do rabino Machles e após o termino caminhar com ele até sua casa.

Chegamos em Jerusalém um pouco atrasados, mas antes do shabbat. De tarde o sol se põe no Mediterrâneo, e como Tel Aviv está a oeste de Jerusalém, o sol não nos ofuscou. Estacionamos o carro no centro da cidade já prevendo a caminhada de volta. A circulação de veículos é proibida durante os dias de festividades religiosas, incluindo o Shabbat, em bairros religiosos. Pegamos um táxi que nos levou até o muro das lamentações. O taxista optou pelo caminho externo que nos deixa na parte mais próxima ao muro. A primeira visão que tive foi da cúpula da mesquita Al-aqsa, seguida pela mesquita de Omar. 

Entramos e já pudemos sentir o clima de confraternização. Quem nunca passou uma entrada de Shabbat em Jerusalém, especialmente no Muro das Lamentações, se impressiona com a movimentação e o clima. Grupos enormes de pessoas cantavam em rodas, soldados portando armas corriam para se juntar aos grupos já formados, estrangeiros vestindo kipot (kipá é o típico chapéu que os judeus usam em locais religiosos, kipot é seu plural) coloridas para facilitar a identificação no meio de tanta gente seguiam seus guias, rabinos subiam em cadeiras e iniciavam as rezas aos berros, haredim (judeus religiosos da tradição europeia) iam e vinham. Tudo num frenesi incontrolável.

Além do caminho externo, mais próximo à muralha de proteção da Cidade Velha e que se aproxima do Muro pela direita, há também o caminho interno, que se aproxima do Muro pela esquerda. Há uma espécie de esplanada antes de chegarmos ao Muro propriamente dito. Ela é dividida na parte superior, mais distante, e que funciona como uma espécie de ante-sala, e inferior que é mais próxima. 

A parte inferior é frequentada pelas mulheres à direita e pelos homens à esquerda. É nesta parte que há uma entrada para uma sinagoga construída sob a fundação de construções. Tanto dentro da sinagoga como fora diversos grupos rezam em descompasso entre si, mas em uníssono se tomados individualmente. A sinagoga não é muito espaçosa, mas o ar-condicionado ameniza tudo e parece acalmar os ânimos até certo ponto.

Há no judaísmo europeu a tradição chamada de Hasidut (lê-se rá-ci-dut), formada no século XVIII como um movimento de reflorescimento espiritual iniciado no que atualmente é o leste da Ucrânia. O movimento se espalhou pelo leste europeu e acabou dando origem a diversos grupos menores com tradições particulares.

A chasidut que vemos no Brasil é a Chabad, uma das mais conhecidas mundialmente, justamente por ter um caráter inclusivo. Os demais grupos são mais fechados para contato externo. Além de pensamentos que se diferenciam em menor ou maior grau, cada chasidut tem vestimentas típicas. 

Algumas usam chapéus cilíndricos feitos de peles de animais, outras usam uma espécie de sobretudo de cores variadas. Alguns com listras brancas, tons de cinza, amarelo ou dourado com listras pretas. As meias podem ser vestidas por cima das calças, lembrando personagens das cortes europeias de outrora. 

Dentro da sinagoga não somente as rezas captavam nossa atenção, mas esse desfile de vestimentas variadas. O que achei mais curioso foram as vestimentas de um judeu etíope. A tradição deles faz uso de um manto branco por cima das roupas casuais. Ele estava enrolado em sua túnica e diversas dobras se formavam ao redor do corpo. De vez em quando ele levantava os braços para reforçar alguma parte da reza. 

Voltei ao pátio principal e continuei observando a movimentação dos diversos grupos: franceses, latinos, americanos dentre diversos outros. A variedade é enorme. 

A hora avançava e não avistávamos o rabino, com o lugar se esvaziando, resolvemos andar até a casa dele. 

O clima em Jerusalém é mais ameno de noite e bem mais fresco em comparação ao lugar em que moro. É a diferença entre um lugar seco e mais alto e outro mais próximo ao mar.  

No caminho cruzamos a principal rua do bairro chamado Mea Shearim. Este bairro é possivelmente o mais religioso de toda Israel. O lugar é uma viagem no tempo. Vimos todos os tipos de religiosos, várias mães andando com filhos ainda em carrinhos. Muitas cenas chamaram minha atenção: a conversa entre dois jovens adultos na qual um deles mostrava ao outro uma garrafa de vodka ou então três senhores mais velhos falando em voz baixa, lembrando muito um encontro de cunho político. Tudo falado em Yiddish, esqueçam que esta é uma língua morta. Seu número de falantes cresce.

Os letreiros também me chamaram a atenção, lojas de utensílios religiosos, livrarias, yeshivot (escolas de estudo religioso), midrashot (instituto de estudos religiosos para mulheres) e uma faixa exposta numa casa: "Só há felicidade sem internet".

Tudo me captava, eu fiz alguns desvios, mas quando estávamos mais próximos, não estávamos seguros da direção que deveríamos seguir. Paramos um homem na rua para pedir auxílio, ele foi tão solícito que nos acompanhou praticamente à casa do rabino, desviando-se de seu percurso. 

Procuramos um pouco mais até que avistamos um grupo grande de pessoas esperando à porta. Não ficamos muito tempo em pé e em menos de 5 minutos o rabino nos recebeu, um a um, cumprimentando todos. O rabino é ortodoxo, mas diferentemente do que poderíamos esperar, ele não usa barba. Americano, tem um sotaque bem forte falando hebraico. 

A sala da casa comportaria um jantar de famíia com até vinte pessoas, mas o rabino recebeu entre oitenta e noventa convidados na noite de shabbat. É incrível a quantidade de gente que havia. A sala inteira era circundada por estantes e livros, quatro aparelhos de ar-condicionado mantinham o clima agradabilíssimo. Por coincidência sentamos na mesa do rabino. 

Diversos tipos bem distintos de pessoas estavam ali. Consegui identificar alguns e aqui entram suposições. Migrantes que chegaram em Israel há pouco tempo, turistas de diversos lugares, pessoas que tem uma condição econômica menos privilegiada, religiosos ou não, jovens religiosos curiosos, amigos do rabino. Um turbilhão de pessoas.

O jantar começou com as boas-vindas do anfitrião, cantamos as músicas tradicionais de Shabbat. Logo depois foi a vez do kidush, a prece do vinho e em seguida fizemos a netilat yadaim (limpeza ritual das mãos). De uma maneira geral isto é feito numa pia, mas como era tanta gente, passaram bacias com os instrumentos dentro para que lavássemos as mãos lá mesmo. Após a limpeza das mãos o rabino recitou a reza do pão. Nunca vi chalot (o pão especial de shabbat se chama chalá - rá-lá, plural chalot)  tão grandes. Faz sentido que fossem deste tamanho, visto a quantidade de gente. Mesmo assim foram usadas quatro, sendo duas delas integrais.

Logo depois começaram a vir os pratos. De entrada tivemos salada, humus, tahine, logo depois gefilte fish. O segundo prato foi a sopa, que eu não consegui pegar. Neste momento, sentado em nossa mesa estava um senhor do Iêmen, que insistiu que eu ainda não havia recebido sopa. O rabino pediu para a cozinha, mas a sopa havia acabado.

Durante cada prato o rabino fazia o que se chama de "divrei torá", ou seja, falava sobre o trecho da torá (antigo testamento) lido na semana em questão. As comidas continuavam a chegar enquanto ele falava.

Quando chegou o prato principal, frango, ele pediu que lhe passassem o prato. Eu pensei que ele quisesse fazer chegar ao lado mais extremo da sala, que era disposta em L, e que havia recebido tudo por último, mas o que ele queria na verdade era me servir como primeiro convidado, tendo em vista que eu não tinha recebido a sopa. Fiquei muito agradecido com esta atitude.

Chegou kigel, uma espécie de bolo salgado de macarrão. O rabino então convidou os participantes a contarem algo que eles conhecessem, relacionado ou não a religião, mas foi claro ao pedir que se evitasse falar de política. 

Várias pessoas levantaram para falar algumas palavras, inclusive uma turista da China, professora de artes. O rabino em algumas vezes complementou, em outras amenizou, mas conseguiu manter a ordem do jantar.

Serviram-nos melancias e a reza que se faz após a refeição foi realizada. O rabino se despediu. Fiz questão de agradecê-lo com um aperto de mão. Essa iniciativa toda é muito interessante.

Voltamos caminhando pela cidade, depois de meia-noite, as ruas estavam cheias de religiosos desfrutando o dia do descanso. 

Gostei tanto de ver isso que quero voltar num dia de semana para poder comparar e também para tirar fotos de tudo que acontece nas ruas. Dizem que nas festividades é muito legal passar pelas ruas do bairro. Outra coisa que me deu vontade foi aprender Yiddish, mas uma coisa de cada vez.

















terça-feira, 8 de março de 2016

O último dia

Nosso último dia completo foi dia 10. Escutei uns cânticos e pensei que havia gente no centro espiritual. Achei estranho porque embora o som chegasse bem baixo, pela distância eles deveriam estar cantando muito alto. Levantei-me. Fui olhar o dia e tentar identificar a origem do som. Finalmente me dei conta de que a música vinha do celular de um índio.

Bastou isto para me lembrar que uma das pessoas tinha resolvido "fazer" kambo, ou seja, ser objeto da aplicação do veneno de sapo. O que se acredita é que o veneno deixa a pessoa alinhada, ela passa a acordar cedo, fica mais concentrada, dentre outros benefícios.

A aplicação se dá da seguinte maneira. Alguns pontos, três para as mulheres e cinco para os homens, são queimados com uma vareta em brasa. Qualquer lugar do corpo serve, mas vi marcas em braços e em tornozelos. Depois de formadas as bolhas das queimaduras, a pele é arrancada e com uma outra vareta o veneno é passado nos buracos das feriadas recém abertas.

A reação imediata em grande parte das pessoas é o vômito e tontura. A pessoa que recebe o tratamento fica entre 1 e 2 horas reagindo ao veneno. Também precisa descansar e resguardar-se do sol por 5 horas.

Como a maior parte do grupo, não achei isto uma boa ideia. Sobretudo sem saber que tipos de reação eu poderia ter ao veneno, e neste caso, sem acesso a nenhum hospital. Achei prudente não arriscar.

Voltei a deitar para descansar. Depois de levantar novamente, vi algumas pessoas pela proximidade pegando cupuaçu. A fruta tem a mesma lógica da fruta do conde, a polpa envolvendo os caroços.

Tomei meu café e fui ao centro espiritual para ver se conseguia acompanhar o feitio do uni. Também havia combinado com um dos índios que ensinaria algo de violão para ele e sabia que o encontraria fazendo a bebida. Não consegui ficar lá mais do que dez minutos, os mosquitos estavam inclementes. Voltei para o nosso local de hospedagem.

Fiquei mais um pouco na rede descansando até que na metade da manhã fomos à casa da árvore. Essa casa é o sono de toda criança. Uma casa na árvore funcional, e mais, a árvore ficava dentro de uma espécie de lago.

A subida era por uma rampa e a casa tinha três cômodos. Logo que entrávamos chegávamos ao que podemos considerar uma sala. A casa tinha formato de círculo, mas a divisão fazia com que cada cômodo tivesse um formato de seção de um círculo. A sala, que era onde chegávamos assim que subíamos a rampa tinha a forma de lua minguante, mas sem ter pontas finas.

A extensão da sala se transformava numa varanda descoberta, com parapeito de madeira. A seção que completaria o círculo era fechada, uma espécie de quarto com porta. 

Ficamos pela árvore tocando violão, cantando. No meio disto uma das meninas experimentou uma folha nos olhos. O resultado foi lacrimejar bastante. Pouco tempo depois passamos rapé. O rapé é feito de tabaco e cinzas da casca de uma árvore específica.

Há duas maneiras de utilizar o rapé. Alguém te ajudando ou a própria pessoa se aplicando. O rapé precisa ser inalado, então para a auto-aplicação utilizando um objeto tubular em formato de v. Uma das partes é posta na narina e a outra na boca. Um sopro e o rapé entra na narina.

Para utilizar o aplicador grande é necessária a ajuda de alguém. A instrução que recebi é que após soprarem o rapé em seu nariz, a pessoa que recebia a aplicação deveria respirar tranquilamente. Como sempre, a teoria é bem fácil.

A sensação imediata que tive ao receber a aplicação foi ardência. No meu caso espirrei e lacrimejei bastante e um pouco veio para a garganta, o que se espera que não aconteça.

Pouco tempo depois destas sensações iniciais senti uma pequena queda de pressão e tive as sensações de tonteira, relaxamento e menor sensibilidade nas pontas dos dedos. O efeito durou pouco e não tive alteração de consciência.

Cantamos mais e eu até acompanhei os cânticos tocando violão. Começou a chover, esperamos um pouco e fomos almoçar. 

Depois do almoço fomos ver o artesanato feito na aldeia. As peças eram lindíssimas, cores bem fortes, contrastes bem interessantes. Gostei bastante do que vi. Na sala um documentário era exibido num computador, sobre o povo Yawanawá.

Aproveitamos a proximidade da ducha coletiva e tomamos banho por lá mesmo. Como havíamos almoçado mais tarde, a janta também se deslocou. 

De noite participamos novamente do ritual religioso. Nem todos participaram da cerimônia nesta noite e eu que lá estive, decidi não tomar o uni. Hoje estava descansado, sem câmeras para filmar o ritual, queria viver a experiência como parte e não como observador.

A noite foi simplesmente incrível. Tal qual a outra, começou com a oferta da bebida aos que quisessem tomá-la, logo depois tivemos os cânticos. Inicialmente em roda, o que invertia o que assistíramos da última vez. Outra inversão foi o si-pã, que apareceu um pouco mais tarde.

Após a roda, instrumentos foram adicionados ao culto. A formação foi com os instrumentos sendo tocados por quem estava sentado em cadeiras. Já conhecendo as músicas, cantei diversas, até que em determinado momento fui chamado para compor o coro entoando os cânticos.

Essa noite foi muito legal. A oportunidade de cantar foi incrível. Como da última vez, já numa parte mais avançada da cerimônia chegou o Matsini. Como pajé ele tem posição de destaque, recebeu um violão e sentou numa cadeira destacada dos demais. Iniciou diversos cânticos, algumas que ainda não conhecíamos. 

Muitos novos cânticos foram entoados. Em determinado momento ele sinalizou que a cerimônia estava por terminar visto que viajaríamos bem cedo no dia seguinte.

Com o fim próximo, um novo si-pã foi trazido para o braseiro e teve início um ritual de proteção. Sentamo-nos todos os viajantes em meia lua, ao redor do braseiro. Os dois pajés, o mais novo e o Matsini se abaixavam para capturar a fumaça, ou alguma energia, e a transferia para as mãos e das mãos para os viajantes, no caso, nós.

A cada coleta realizada desta maneira, ele posicionava ambas as mãos em alguma parte da gente, cabeça, peito, costas, braços. A maneira de transferir era com o tradicional sopro com som gutural: uh-xxxxx. 

Esse processo foi realizado para cada um dos viajantes tanto pelo Matsini, quanto por Raçu, que é como se chamava o pajé mais novo. Ao final pudemos falar algumas palavras.

Agradeci a hospitalidade, comentei sobre como temos costumes diferentes e não somente uma distância física que nos separava. Mas frisei que tínhamos uma língua em comum e que por isso conseguíamos nos comunicar.

Comentei que agora eu podia dizer que tinha amigos na selva e por outro lado que eles soubessem que agora eles tinham amigos na cidade. Mais uma vez agradeci por terem nos recebido e me desculpei por termos quebrado a rotina deles.


Foi uma noite emocionante.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Cerimônia religiosa e brincadeiras na aldeia


Pouco depois de escrever sobre o dia anterior fomos chamados para ir ao centro espiritual da aldeia. O centro ficava na direção oposta ao que já conhecíamos da aldeia. A partir do ponto de desembarque, caminhamos para onde nos hospedamos e seguimos.

O caminho não era muito longo, passamos pelo roçado, que é como chamavam a o local onde plantam banana e mandioca, depois por um brejo onde havia muitos sapos, um declive em forma de escada moldada no barro e logo encontramos um churru, a tradicional construção circular com telhado de palha.

Churru no centro espiritual.
Este ficava à beira de um igarapé, o que trazia muitos mosquitos para o local. Aguardamos um pouco sentados sob o churru, até que Matsini, o pajé mais velho, nos recebeu. Ele nos mostrou a plantação dos dois componentes da ayahuasca, ou uni, como os Yawanawás se referem à bebida sagrada. São eles o cipó e a folha. Passando por dentro do churru, a plantação ficava atrás, inclusive sua casa ficava praticamente colada ao churru.

Anoitecer.
Já escurecia enquanto o Matsini nos explicava qual era o procedimento de produção do chá, ou feitio, como o processo também é chamado. Falou da história das plantas, passando pela representatividade do cipó como macho e a folha como a fêmea.

A preparação se dava dentro do próprio churru. Tomando o local onde me sentei como sul, a fogueira grande onde o uni era preparado ficava entre o norte e o nordeste. A fogueira era ladeada por dois cavaletes de madeira, em formato de y.

A grande fogueira.
A plantação ficava a nordeste com acesso pelo leste, a casa do Matsini ficava a sudeste e entre leste e sul ficou a fogueira de brasa onde mais tarde queimou-se o incenso, si-pã. O igarapé corria paralelo à tangente que tocaria o sul, também ao sul ficava uma área aberta com um banco atrás. 

Entre sul e oeste ficavam os membros do coro, também foi lá que se dava o início das cerimônias de dança em roda. Entre oeste e noroeste ficava o acesso ao churru de quem vinha da aldeia. E a noroeste ficava a mesa onde as garrafas com uni ficavam e onde o uni era servido. Entre noroeste e norte havia uma prateleira onde os instrumentos eram guardados.

Entramos no churru, nos acomodamos e durante um bom período escutamos de Matsini diversas histórias sobre os Yawanawás e seus costumes. Conhecemos a história de gênese do mundo e de seu próprio povo. Segundo a tradição conta, houve duas criações. A primeira deu origem a diversos povos, dentre estes povos estava o homem branco. O termo utilizado para falar de povos em geral é Nawá.

A lenda segue e conta que um homem da primeira geração havia sido morto por um caçador. Dentro deste homem o caçador encontrou duas pedras do tamanho de limões. Sem saber o que eram as pedras e já conhecendo a anatomia de diversos animais, o caçador ficou surpreso e resolveu guardar as pedras numa bolsa específica de palha que os índios costumam deixar pendurada na porta.

Já em casa o caçador escuta um ruído. Disposto a descobrir de onde vinha o ruído o homem procurou por toda a casa, não encontrando nada. Sobrando apenas a bolsa para conferir, ele fica reticente tendo em vista que a pedra que a pedra é um objeto inanimado. 

Não havendo outra alternativa ele confere a bolsa assim mesmo. Para seu espanto ele encontra um belo cocar feito de queixada, o porco do mato, o mesmo que dá nome à sua tribo. O processo se repetiu até que diversos outros cocares aparecessem, cada um feito de um animal da região, cada qual representando um povo conhecido por eles. Esta é a história da segunda criação, onde aparecem os povos que encontramos atualmente na região amazônica na qual estão os Yawanawás.

Um pouco mais de conversa e o questionaram sobre a vida após a morte. Há uma crença narrando que as pessoas quando morrem realizam uma travessia por um corredor de fumaça. Cada espírito, de acordo com o estilo de vida enquanto na terra, pode habitar uma das duas opções: uma região com outros espíritos similares ou outra onde habitam as bestas, termo que ele usou para se referir a animais selvagens, normalmente ferozes. 

Um ponto que ele fez questão de frisar foi que a segunda opção não é ruim, porque para aquele tipo de espírito, habitar com as bestas é a melhor opção. É o local onde aquele tipo de espírito se sente melhor.

Falando sobre a vida após a morte ele entrou no tema saudade. Segundo a crença os espíritos podem sentir saudades dos que aqui ainda não fizeram a travessia. O remédio para isto é que há dois palhaços que fazem graça até que o espírito ria e assim esqueça das saudades dos que deixou aqui.

Recebemos mais algumas instruções e a cerimônia foi oficialmente aberta com o convite para que todos fôssemos provar uni. Antes do ritual de tomar a bebida brasas foram retiradas da fogueira principal e colocadas num local mais próximo a todas as pessoas. 

É servido o uni.
Nesta nova fogueira de brasas o incenso deles foi colocado. O si-pã, como eles chamao o incenso é feito de seivas de determindas plantas, o cheiro é aromático, bem perfumado e gostoso. O intuito do incenso é espantar maus espíritos. Parte do costume é se aproximar da fogueira e consequentemente da fumaça e trazê-la, com os braços, para si. 

Si-pã sendo coloado na fogueira.
Um a um fomos à mesa onde a bebida estava sendo servida. Antes de nos servir o pajé mais novo lançava bons augúrios através de um som gutural seguido de um sopro. Este som com sopro era utilizado em diversas ocasiões, sempre como uma forma de benção.

Tomei a dose recomendada de dois dedos. O gosto da bebida é ruim, parece uma sopa com sica. A coloração é verde lembrando um destes sucos desintoxicantes ou de clorofila. Talvez sopa fosse o nome mais apropriado, talvez até caldo.

Logo após todos terem sido servidos, nossos anfitriões se serviram e se posicionaram em duas linhas. Dispuseram alguns colchões no chão, perto da saída do churru, entre o mastro e uma das laterais. Estavam de frente para o grupo de visitantes. 

Começaram a entoar seus cânticos sagrados. No início todos cantando à capela, o pajé mais jovem começava a cantar, sendo logo seguido pelas demais índias. As músicas iniciais soaram como cheias de vogais. E embora a letra variasse, a estrutura era bem parecida. Quatro estrofes eram entoadas, as duas primeiras bem lineares, a terceira com uma alteração que acelerava o compasso, fazendo com que a última tivesse de ser prolongada para compensar a terceira e manter o conjunto de quatro compassos no tempo. O efeito sonoro é de criar um uníssono e o prático é de realinhar o ritmo para o próximo conjunto de estrofes.

Cânticos.
O coro que se formava, com diversas vozes se somando em uníssono, às vezes se sobrepondo criando harmonia com vozes, tudo isso criava um efeito incrível. O churru, com iluminação parca da grande fogueira, os cânticos ritmados em uma espécie de transe musical, tudo isto criava uma atmosfera típica de experiências que podem ser classificadas como espirituais.

Após alguns cânticos nesta formação, todos os integrantes se levantaram e começaram a cantar ao redor de brasas que já haviam sido  trazidas da fogueira principal e dispostas, para a utilização com o si-pã.

Uma nova formação foi adotada, agora os índios se deram os braços e dançavam ao redor da fogueira, passo a passo, lentamente, entoando os cânticos. Fomos chamados a participar da roda. Alguns foram e outros não. A roda durou bastante tempo. 

O pajé mais velho, Matsini, me havia contado que inicialmente eles se mostraram relutantes em adotar instrumentos. Mas segundo ele, um sonho o fez mudar da ideia. Eles adotaram os instrumentos há cerca de dois anos. Então, depois da formação linear, da formação em roda, eles voltaram a ficar alinhados, com o pajé mais novo empunhando um violão, sentado numa cadeira enquanto que as meninas ficaram sentadas em colchões ou em pé atrás dele.

Diversas canções foram tocadas por este pajé até que por fim Matsini assumiu o violão e o pajé mais novo pegou o charango, um instrumento musical muito utilizado na cultura andina. O instrumento de corda foi provavelmente adaptado para as necessidades locais a partir da chegada dos espanhóis. 

Além destes dois instrumentos de corda, também havia uma flauta marcando a melodia e tambores e chocalhos. A cantoria voltou e diversas músicas foram tocadas. Algumas tem palavras e outras são apenas mantras, chamados saiti. 

Aproveitei o céu límpido para ficar olhando para as estrelas. Morando numa cidade é bem difícil observar o céu, a iluminação próxima ofusca muito a beleza dos céus. Sorte que ali naquele local podíamos observar com perfeição o que a natureza nos proporciona quase todas as noites. Foi uma experiência incrível poder observar o céu ao som de mantras indígenas. Curiosamente a última vez que me lembrei de ter visto algo tão fascinante foi acampando no deserto. 

O uni atuou de diversas maneiras entre as pessoas que provaram. Algumas se sentiram enjoadas e tiveram alterações de visão, outras não se enjoaram, mas tiveram de vomitar. Já teve gente que precisou repetir algumas vezes a dose a fim de sentir algo.

O que senti foi um cansaço estupendo, embora passageiro. Por sorte eles tinham diversas redes dispostas ao redor do churru e me vali de uma delas para ficar quieto por um tempo. Outra coisa que me chamou a atenção foi o modo como o pajé nos perguntava com respeito aos efeitos do chá. Ele perguntava se estávamos “tranquilos na força”, referindo-se ao efeito como algo transcendental.

Perto da meia-noite voltamos para nossas acomodações. 

Depois de uma noite tão intensa quanto a que passou, não sabia como seria nosso dia. Ele começou um pouco mais tarde do que os demais, embora tivéssemos acordado cedo como de costume, por volta das 6:30. 

Nosso café da manhã, mais uma vez foi composto de diversas variações de preparo da banana. Banana verde frita, banana madura frita e banana cozida. Teve também mamão e torradas com manteiga.

Depois do café nos preparamos para visitar a samaúma. Esta é uma árvore enorme e pelo que nos contaram o exemplar que visitamos sequer era um dos grandes. A samaúma que íamos visitar ficava do outro lado do rio e utilizamos as embarcações para fazer a travessia.

Samaúma.
Na cultura Yawanawá está é considerada uma árvore sagrada, acreditando que o espírito desta árvore é muito forte. Também há uma lenda que envolve a samaúma e o gavião real. 

A história narra como os gaviões reais estavam atacando as pessoas para dá-las de alimento para os recém nascidos filhos de gavião. A história conta como que os humanos ao derrotarem o gavião real fizeram com que os outros homens que já haviam sido comidos fossem regurgitados e se tornassem, ao cair no solo, em todas as árvores da vegetação conhecida.

Samaúma.
Ainda numa conversa informal, perguntei ao Matsini como surgiu o corte de cabelo na cultura deles. Ele contou que isso começou com a chegada dos homens brancos. Também mancionou como índios vindos do Peru atacaram as tribos locais munidos de espingardas e a maneira que utilizaram para resistir e contra atacar. Calendário, festividades, plantio, tudo isto veio junto com a chegada do homem branco.

Após um bom tempo escutando estas histórias e lendas tínhamos de atravessar o rio de volta. Os índios resolveram voltar a nado. Decidiram isto em cima da hora, foram com as roupas que estavam no corpo e só se deram ao trabalho de deixar algumas coisas nos barcos. Eu não deixei por menos e voltei nadando também, mas eu já estava de sunga, tirei a roupa para não molhar, mandei no barco. A diferença é gritante de como temos cuidados e como eles fazem as coisas sem melindre algum.

Chegando à aldeia almoçamos galinha caipira muito bem preparada e ainda por cima, apimentada. Um dos destaques em termos de refeições. Descansamos depois do almoço e nos preparamos para o que eles chamaram de brincadeiras.

Antes dos jogos as crianças foram pintadas.
Antes dos jogos as crianças foram pintadas.
O açude próximo ao local onde se deram as brincadeiras.
As brincadeiras foram sensacionais! A primeira delas deu-se da seguinte maneira: Alguns pedaços de cana foram cortados em tocos de dois palmos. Inicialmente as mulheres tinham de tirar o toco das mãos dos homens, que os seguravam. As mulheres podiam usar ambas as mãos e mais de uma podia tentar arrancá-lo dos homens que os protegiam, estes com a limitação de utilizar apenas uma das mãos.

Brigando pelo pedaço de cana.
Eu comecei a brincadeira com o braço direito. Resisti bastante e foram necessárias quatro mulheres para tirar o pedaço de cana da minha mão. Já para o braço esquerdo apenas duas foram necessárias. Saí bem cansado desta primeira brincadeira.

Ainda de posse da cana.
Logo em seguida os papeis se inverteram e coube aos homens arrancar das meninas o pedaço de cana. Na sequência a outra brincadeira que fizemos foi o cabo de guerra com um pedaço grande de cana de açúcar. Eu não participei desta.

A outra brincadeira foi uma espécie de bobinho com um mamão. Os grupos sentavam no chão e passavam o mamão de uma pessoa para a outra. Cada grupo tinha de interceptar a troca de mãos. Essa brincadeira descambou numa espécie de futebol americano. Um dos caras do nosso grupo fazia muito bem a proteção e quando a bola ficava dividida, armava-se aquele monte para disputa. O esforço era de tirar as pessoas de cima para alcançar o mamão protegido sempre por alguém. 

As mulheres eram muito fortes, não poupavam esforços e talvez se equiparassem aos homens nas atividades cotidianas da aldeia. Isso fica evidente nas brincadeiras, mas também se reflete por serem elas a plantar e a não se negarem a praticar nenhuma das atividades praticadas pelos homens.

É impossível não lembrar das garotas da cidade, normalmente com mais restrições, a começar pelo mato. O contato diário com a natureza parece que molda todos e os deixam mais tranquilos. E aí vemos que as coisas se resumem ao essencial. Eu valorizo muito o contato com a natureza. Gosto da simplicidade, da transparência, a objetividade. Tudo que é necessário para sobreviver num ambiente não domesticado, mais selvagem.

O prêmio das brincadeiras era ficar com a fruta que era objeto de disputa. Tinha tempo que eu não chupava cana. Como é bom aquele gostinho de açúcar. Não precisamos de muitas coisas para nos divertirmos e sermos felizes.

Depois de encerradas todas as brincadeiras, todos nos postamos em roda e começamos a dançar. Enquanto alguns rodavam, outros iam para o meio da roda dançar, sempre um menino e uma menina. O baile era ritmado pelos cânticos e os pares davam três passos para frente e três passos para trás. Os pares iam trocando, a roda externa sempre em movimento circular.

No final formou-se um trem, caminhamos por toda aquela região da aldeia até terminarmos todos dentro do açude. Foi um dia bem cheio, bem divertido e o final de tarde muito bonito. O dia seguinte seria o último dia. Seria difícil um dia superar este com tantas atividades.

Todos no açude.
Entardecer de dentro do açude.
Entardecer de fora do açude.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Banho de ervas e pintura tradicional

Tive uma das piores noites de sono da viagem. Enquanto havia dormido muito bem na Aldeia Estrela, a primeira noite na Aldeia Mutum foi bem diferente. 

O principal problema foi como a rede havia sido disposta. Enquanto na estrela ela fora amarrada aqui foi pendurada em ganchos. Pelo menos foi esta a única razão que encontrei ou melhor, a única diferença que notei. Essa diferença de posicionamento fez o centro da rede estar mais alto que as bordas, fazendo com que braços e pernas escorregassem mudando o equilíbrio e me acordando diversas vezes. 

Conversando com outras pessoas notei que todas tiveram problema semelhante. Passamos algum tempo do dia pensando em estratégias para consertar o posicionamento das redes. Algumas pessoas utilizaram um nó numa extremidade para corrigir a altura da rede, outras adotaram dois nós. Vamos dormir para testar.

A manhã em si foi como as outras até agora. Começou cedo. Não tão cedo quanto nos outros dias, mas 6:30 ainda é cedo. 

Descobri que os mosquitos também gostam de mim. Até então eu estava com pouquíssimas mordidas causando certa inveja em meus companheiros de viagem. Mesmo sendo o último a sentir o peso das mordidas destes pequeninos mosquitos, aqui chamados de pium, não tive melhor sorte que os demais.

A mordida que o mosquito deixa lembra um ponto feito por uma caneta esferográfica. A mordida não dói, mas coça muito, sobretudo durante a madrugada. Não sei qual a relação disto com a noite ou a rede, mas há algo que acontece.

O café da manhã repetiu os itens gastronômicos já conhecidos: banana verde frita, banana madura cozida, torrada com manteiga e queijo, estes itens novidade. Além de chá, café e água.

Um fenômeno incrível aconteceu pouco depois do café da manhã. As formigas conhecidas como taocas invadiram a cozinha. Milhares de formigas estavam invadindo a cozinha. Segundo eles essas formigas não atacam os homens ou sua comida, elas vão em busca de insetos. A quantidade era tão grande e tão impressionante que o chão parecia se mover.

Formigas taocas se movimentando em massa.
Na tentativa de filmá-las, apoiei meu braço no parapeito da cozinha para logo depois perceber que tinha esmagado algumas. Comecei a tomar umas mordidas, mas escapei a tempo, apenas uma conseguiu de fato me morder. 

Durante a manhã fomos conhecer a aldeia. A Júlia nos conduziu em nossa visita, mas antes de iniciarmos a caminhada, pudemos conversar com ela e com seu irmão, o Pajé Matsini. 

Interior de uma casa na aldeia.
Ela começou nos explicando a história da aldeia, que fora fundada por seu avô. Segunda ela a dinastia tem princípio com este mesmo avô na Aldeia de Quixanawá. 

A televisão chegava a esta casa por satélite.
O avô era órfão de pai tendo seus primeiros cuidados sido dados avó. Por desde  cedo se mostrar uma pessoa bem especial, acabou voltando a ser criado pela mãe que era solteira.

Esta criança começou a desenvolver-se muito cedo e dentre as muitas habilidades que desenvolveu uma lhe ajudou muito. Ele compreendeu desde cedo a importância de negociação e foi assim que mais tarde pode negociar com seu patrão a liberdade para seu povo.

Os Yawanawás habitam diversas aldeias, todas sendo um núcleo familiar. Cada qual liderada por um patriarca/matriarca. Embora cada aldeia tenha sua história, todas ainda possuem como referência a aldeia original, onde são enterrados até hoje seus mortos.

A Júlia nos contou que se formou em letras. Eu perguntei sobre a origem do idioma e ela me contou que pertencia ao ramo Puno, ela aproveitou e comentou de um projeto da UFRJ que está registrando a língua, escrevendo uma gramática e um dicionário. Além da UFRJ outro parceiro no projeto é o Museu do Índio que por coincidência fica bem perto da minha casa.

Durante o passeio escutamos mais da história do povo Yawanawá, de detalhes das aldeias, das parcerias com empresas estrangeiras, sobretudo para a venda de urucum para a fabricação de cosméticos, dentre outros detalhes.


Sementes de urucum.
Urucum.
Das diversas construções que conhecemos gostei muito da casa da árvore. É o sonho de toda criança. Uma casa construída ao redor de uma árvore, no meio de um brejo, com uma entrada em rampa. Ela me lembrou um jogo bem antigo de computador, Myst.

Casa da árvore.
Depois desta volta nos reunimos no churru. Lá tivemos a oportunidade de conhecer Tatá, um ancião de 101 anos de idade. Não é comum alguém chegar aos 100 anos, muito menos alguém que caminhasse tranquilamente. Antes, enquanto ainda esperávamos que ele chegasse, pude escutar uma das músicas que eles entoavam e aprendi os acordes no violão.

Pouco depois de conhecer Tatá tínhamos duas atividades para fazer. A primeira era a pintura tradicional e a segunda o banho de ervas. O grupo foi dividido e eu fui para o banho de ervas, que foi feito numa das cabanas que ficam próximas ao nosso local de dormir. Algumas meninas ficaram no churru já sendo pintadas.

 O banho de ervas foi realizado em duas etapas. Antes destas duas etapas houve a preparação. Nela, diversas folhas foram adicionadas a uma panela de água de aproximadamente 50 litros. A panela foi levada a uma fogueira e a água foi aquecida.

O banho de ervas já dividido em tinas menores.
Depois de chegar ao ponto ideal a panela foi transferida para uma das barracas. Na barraca recebemos um lençol que ficou sob nossa cabeça. Isso concentrava o vapor que saía da panela fazendo parecer bastante uma sauna.

Até que para o calor da selva amazônica aguentamos bastante tempo essa etapa de calor. O cheiro que emanava das folhas era gostoso, realmente lembrando uma sauna. Depois desta etapa a água foi dividida em tinas largas e resfriada. Tivemos de aguardar algum tempo para que a temperatura fosse suportável.

Depois disso cada um sentou numa tina e o processo de banho se iniciou. Basicamente com as próprias folhas fazendo o papel de espoja para reter água, éramos banhados. O movimento era mergulhar as folhas n'água e elevá-las às nossas cabeças e ombros.

O banho durou por volta de vinte minutos. Saímos com o cheiro refrescante, embora sentindo calor. E com algumas folhas espalhadas por nossos corpos.

O almoço veio logo em seguida com uma preparação diferente de mandioca. Também acompanhou um pato que estava muito bem feito.

Ali mesmo, no refeitório, recebemos a pintura tradicional. Segundo a moça que nos pintou, a minha significava o conhecimento por termos aprendido sobre a tribo e a coragem de termos vindos de tão longe.
Pintura tradicional Yawanawá.
A noite participaremos da cerimônia religiosa deles. Teremos de manter uma dieta de tarde/noite, comendo pouco e leve. E descansando.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

De Sete Estrelas a Mutum

Dormi muito bem de noite. A noite na selva cai abruptamente e tão radical quanto a mudança de luz é a mudança de sons. Os animais noturnos começam a emitir os sons enquanto que os diurnos cessam. E mais interessante é que por mais intenso que sejam estes barulhos eles não atrapalham o sono. Pelo menos não atrapalharam o meu. Não sei se por cansaço depois de tantas viagens e noites mal dormidas, fato é que dormi incrivelmente bem. 

Como a vida na selva é ditada pela luz natural e ainda, sabendo que eu sou completamente do dia, acho que poucas vezes na minha vida tive tanta disposição. Ia dormir perto de 20:00 sempre e acordava com o alvorecer, em torno de 5:00/5:30.

A satisfação de uma noite bem dormida, mesmo tendo dormido em rede é inigualável.

Mesmo tendo acordado algumas vezes no meio da noite senti-me muito descansado. Nestes momentos despertos eu observei a selva. Observei muito mais com a audição do que com a visão. O breu era completo, foi a sensação mais próxima que tive da total falta de visão. 

Essa é uma constatação incrível, a total ausência de luz faz teu corpo se adaptar e dar muito mais atenção a outros estímulos, como é o caso do som. Todos os barulhos se fazem perceber.

Sapos, insetos diversos, alguns pássaros, cânticos indígenas de fundo. Todo ruído é amplificado e percebido.

No meio da noite escutei um grito, acordei sobressaltado. No dia seguinte vim a saber que uma menina achou que algum animal tivesse colidido ou mexido em sua rede. O vizinho de rede também sentiu algo.

Os índios no dia seguinte constataram que era obra de um espírito da floresta. E eu que achei que tivesse sonhado tive a certeza de que não sonhara.

Outro som que me fez despertar foi a chuva torrencial, esta trouxe uma temperatura agradável, um belo fundo sonoro e tranquilidade.

Acordei bem cedo, antes de seis da manhã, para ser preciso perto de cinco. Outros também estavam despertos neste mesmo horário. Ficamos de papo até que vimos que nosso anfitrião chegava à cozinha comunitária. 

Os índios se puseram a cozinhar. Fiquei sabendo que um dos filhos do Luis se juntou a uma mulher que não é indígena. Ela trouxe os filhos, que pela aparência eram notadamente diferentes dos demais integrantes da aldeia. Mesmo assim pareciam completamente integrados e adaptados. A esposa do filho do Luis era formada em medicina e agora estudava os tratamentos tradicionais indígenas.

Durante o café da manhã fiquei conversando com o Luis e ele me contava como havia tentado ensinar o filho sobre estes conhecimentos. Ed no entanto não mostrava muito interesse e foi só mais tarde que espontaneamente resolveu aprender que Luis pode passar seu conhecimento. O processo de aprendizado ainda estava em curso e além de estudar, o aluno precisa passar por uma dieta específica.

É interessante que para cada atividade que envolva absorção de conhecimento ou introspecção religiosa os índios utilizem uma dieta específica. 

Essa questão de estudar mais velho me mostrou como os tempos ali são diferentes. Eles são pais e casam muito cedo. Durante esta fase dedicam-se a aprender as tarefas que lhes permitam a sobrevivência imediata. Talvez porque ainda gozem de boa saúde não precisam ter conhecimentos mais específicos sobre doenças. Mais tarde, já mais fragilizados e com os filhos maiores e mais independentes, se dedicam a outras tarefas. Mas isto é apenas uma dedução minha, sem o menor rigor científico. 

Nosso café da manhã foi composto de mandioca, mingau de banana, café e banana verde frita. As preparações de banana eram muito gostosas. E também já deu para notar que mandioca e banana é a base da culinária deles.

Depois do café caminhamos pela horta medicinal do seu Luis. Algumas plantas cheiravam muito bem, inclusive uma indicada para curar dor de cabeça tinha o cheiro de refogado de alho, cebola e cebolinha. Eu tenho um livro sobre mágica na culinária. Esta planta se encaixaria perfeitamente em algum dos capítulos.

Alguns integrantes da Aldeia Sete Estrelas nos acompanharam durante a visita à horta.
Uma outra planta que achei interessante foi a que é utilizada para transformar alguém em pajé. O simples tocar a planta é proibido para quem não estiver no processo de preparação, dieta e aprendizado.

Algumas barracas utilizadas para receber visitantes, à direita, dona Luísa.
Após esta volta, que durou boa parte da manhã, fomos arrumar nossas coisas para que estivéssemos prontos antes do almoço. 

Vi a preparação do almoço, que desta vez apresentou uma espécie de farofa de banana, sem farinha, peixes pescados com tarrafa e cozidos na folha de bananeira.

Logo após o almoço fizemos a despedida, agradecemos e fomos para o barco. 

Como havia chovido bastante na madrugada, o rio estava mais cheio o que nos proporcionaria uma viagem mais rápida e confortável.

Trecho do caminho de Sete Estrelas a Mutum.
Chegamos em Mutum, a outra aldeia, e já fomos direcionados para o local onde nos estabeleceríamos. O local era uma cabana elevada com as laterais abertas na altura de onde poderiam posicionar janelas.

Nosso quarto coletivo em Mutum.
Os banheiros contava com vasos sanitário, não de sentar, mas aqueles de agachar, com apoio lateral para os pés. Também havia chuveiro, mas o abastecimento intermitente de água nos obrigou a tomar banho no local mais próximo da moradia dos índios. Para isto tivemos de fazer uma caminhada.

Depois do banho de chuveiro consegui a proeza de pisar na única tábua faltante da ponte. A meu favor digo que a ponte estava submersa. O ponto interessante é que afundei tanto a ponto de ficar com a barriga abaixo do nível d’água. E como o chinelo prendeu no fundo lamacento, tive de enfiar meu braço inteiro dentro d’água. Belo banho.

A noção de limpeza muda nesta situação. No jantar tivemos carne de paca. Um sabor forte demais, talvez cozinhá-la com batatas e durante mais tempo ajudasse a amenizar o sabor muito marcante. A farinha de mandioca ajudou um pouco neste sentido. De sobremesa tivemos banana e laranja. 

Comparando uma aldeia a outra notei que Sete Estrelas seja mais próxima ao que seria sem a influência do homem branco, em comparação a Mutum. Enquanto nesta já há até energia elétrica, naquela tudo era mais rudimentar. A comparação foi ótima porque nos deu uma gradação do que pode ser conforto e do que pode ser rústico.

Os próximos dias nos prometem bastante imersão na cultura. Na hora que escrevo, 19:56 hs, já me preparo para dormir.













terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Aldeia Sete Estrelas

Levantei 5:50, apesar de ter programado o despertador para às 6:00. Acordei durante a noite toda, uma chuva inclemente caía em Cruzeiro do Sul e eu pensava se conseguiríamos passar pela estrada até nosso destino. Quando criança eu tinha o sono pesado, despreocupado, acho que a vida adulta me deixou com o sono leve.

Arrumar mala apertada é um problema. Embora tudo possa ser levado nela, qualquer coisa que você quer, a troca que se faz é pelo tempo. Tempo para arrumar, tempo para recuperar um item. Mesmo tendo viajado tanto ainda posso melhorar a maneira de arrumar a mala e pensar melhor no que levar, ter roupas mais versáteis. Sempre é um lugar onde se pode melhorar.

Após mais de duas horas na estrada indo para leste, ou seja, voltando em relação ao caminho que fizemos por avião, chegamos ao ponto de embarque, a Vila de São Vicente. Demoramos mais de uma hora esperando para embarcar, um problema no motor nos segurou.

Por fim tomamos os barcos. Eram pequenas embarcações metálicas que lembravam canoas, porém motorizadas. O que me chamou a atenção foi que o motor tinha uma haste e esta por fim tinha a hélice, que eles chamavam de paleta. 

As voadeiras com nossas mochilas e malas.
Fugindo do sol e dos mosquitos.
A viagem durou 5 horas.

Durante a viagem tivemos muito tempo para refletir. Algo que me veio à cabeça recorrentemente foi que não precisamos de quase nada para viver. O contato com a natureza crua, quase intocada, me trouxe muitos pensamentos. Como inicialmente os índios chegaram aqui? Qual a história de gênese deles? Como uma nova aldeia é formada? Quando chegaram os primeiros homens branco? Qual o limite entre a cultura de um povo e o resto do mundo? O resto do mundo está vivendo melhor em comparação aos índios?

Cinco horas nas voadeiras não são fáceis. Faltando perto de uma hora de trajeto nosso condutor, Isaac, parou e fez um estrado de madeira para cada um de nós. Pudemos deitar até chegar à Aldeia Sete Estrelas.

O início da viagem em voadeiras
Logo que chegamos Luis nos recepcionou. Ele nos explicou o que faz por lá, medicina com plantas tradicionais. O filho dele que é o cacique, Ed, também estava neste momento inicial. Os Yawanawás falam o Yawá. A língua é bem sonora e curiosamente me lembrou o mandarim, embora com o tempo notei muitos sons nasais, o que me desmanchou a percepção inicial. 

Outra coisa que se nota são os traços fisionômicos. Eles se parecem com a imagem geral que temos dos bolivianos, mas mesmo assim, são diferentes.

Aproveitamos que ainda tinha luz e fomos tomar banho, no rio. A chegada fazia-se por um barranco. O banho foi ótimo, conseguir chegar limpo à Aldeia mostrou-se um desafio. 

Como nosso guia local, Tiago, não havia alertado à Aldeia de nossa chegada com antecedência, o jantar foi improvisado: banana frita, mandioca cozida, abacaxi, atém de arroz e macarrão que havíamos levado.

Quem preparou a refeição foi Luísa, esposa de Luis. Notei que ela utiliza mais o Yawá que o português para se comunicar. Era bem legal prestar atenção à maneira como ela fazia as coisas, se comunicava e interagia. Além dela na cozinha havia uma moça mais nova e diversas crianças.

Dona Luísa preparando nosso almoço.
As crianças participam ativamente das tarefas diárias.
O fogão bem rudimentar é utilizado dentro da cozinha. À esquerda ficava a área onde os alimentos eram preparados, à direita a mesa onde a refeição seria servida. Notem que entre o piso de madeira e o fogo há uma separação feita com barro.
Dormimos todos dentro do mesmo local, um churru, chapéu de palha. As redes foram dispostas em torno do mastro principal e presas em traves que ficavam dispostas ao redor da estrutura, entre um poste e outro. Tudo parte da estrutura.

O churru ainda com luz.
Já de noite, foto tirada desde o mesmo lugar.
O churru à esquerda e a barraca na qual foi acendida a fogueira, à direita.
Na estrutura ao lado uma fogueira foi acesa, acho que mais pela luz. Ficamos um bom tempo de papo por ali, notamos como a noite cai abrupta na floresta e como os sons mudam repentinamente. Os animais que dormiam de dia agora estavam alertas e vice-versa.

A previsão é de ter mais duas horas de viagem de barco amanhã.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Rumo ao Acre

Depois de algumas pesquisas decidi o novo destino para uma viagem. Dessa vez a vontade era explorar mais o Brasil aproveitando o período de carnaval. Não queria uma viagem muito longa. Nem sempre tomamos as decisões de acordo com a proposta inicial.

A viagem começou na noite de quinta-feira, dia 04/02/2016. É notável como ainda hoje o Brasil é difícil de se conhecer. A melhor opção de voo era sair do Rio de Janeiro para Rio Branco com uma conexão em Brasilia.

No aeroporto de Brasilia notei os mesmos problemas que vemos em diversos outros aeroportos do país. Corredores apertados, preços exorbitantes e serviços ruins.

Chegamos bem tarde em Rio Branco, do aeroporto, o menor que já visitei em se tratando de capital, fomos para o hotel.

A bandeira do Acre
Com três horas de fuso, duas regulares e uma mais pelo horário de verão, tive de acordar às 6 da manhã na sexta-feira para trabalhar. Depois de trabalhar bastante dei uma volta na cidade. Visitei o palácio Rio Branco, que era sede de governo, o museu autonomista, que conta a história do movimento de emancipação do Estado do Acre, além de passear pelo Novo Mercado Velho e pela Gameleira, um calçadão contíguo ao Rio Acre com diversos quiosques vendendo alimentação e bebidas.

Palácio Rio Branco

O Novo Mercado Velho
Provei o Açaí local, provei o Tacacá, uma espécie de sopa que utiliza como base o tucupi, que é um caldo extraído da mandioca. Adiciona-se o jambu, uma planta local que tem a propriedade de deixar os lábios dormentes, a goma de tapioca, utilizada exclusivamente para engrossar o caldo e também o camarão seco. Não entendi porque utilizam o camarão se o mar fica tão distante.

Tacacá

De noite novo voo, dessa vez para Cruzeiro do Sul, mais a oeste, quase fronteira com o Peru. Já tendo encontrado a guia antes da ida para Cruzeiro do Sul, já estávamos sob a regência da empresa contratada para o passeio. 

Fomos recepcionados no aeroporto pelo nosso contato com a tribo, um jovem indígena chamado Tiago e de lá partimos de ônibus para o hotel. A noite foi calma. Seria a última com ar-condicionado. Durante a noite uma tormenta acometeu a cidade e um ruído bem alto pôde ser escutado quando a chuva tocava o teto do hotel.

Sendo por volta de uma da manhã, dormir era necessário porque a próxima etapa da viagem começaria bem cedo.



A ponte que cruza o Rio Acre, essa uma de pedestres. A ponte parte de onde fica o mercado e chega ao outro lado, onde fica a Gameleira.
Construções ao lado do mercado.